quinta-feira, 31 de março de 2011

GLACÊ PSICODÉLICO

Aqui um caso de mudança de identidade visual. O cliente pediu logo, cartaz, cartão, etc. O detalhe é que ele já tinha tudo isso. Meu trabalho seria dar um upgrade a parada toda. O Detset faz rock dos anos 80, 90 e 2000, ou seja, banda de dial (aquele simpático mostrador de rádio) que toca sucessos atuais e mega hits do passado. Sem trabalho autoral. Portanto, na teoria, trata-se de uma autêntica banda pop como tantas que a gente conhece.

Numa rápida pesquisada no tipo de comunicação que é desenvolvido pra bandas semelhantes, encontra-se dois pontos comuns: muitas cores e alegria/festa (e nisso incluo cartazes antigos da própria banda). Só que se os caras contrataram o meu trabalho por livre e espontânea vontade, estando cientes do meu estilo, quer dizer que estava claro que desejavam justamente o toque escamoso nesse novo visual.

Mãos à obra! Primeiro a logo. Já falei aqui que não gosto de criar logo? Pois é! Não gosto. Fiquei alguns dias quebrando a cabeça porque queria chegar num ponto médio entre o pop e o cool. Acho que o detalhe da guitarrinha deixou açucarada para a galera blasé e o modo como encaixei as letras tenha tornado "muderna" pra galera pop. Buenas, o target da banda (público e contratantes) não é alternativo, muito pelo contrário. Então é isso. Simpático sem ser sorridente-extreme e confuso sem ser agressivo.

Já na linguagem do cartaz eu queria um pouco mais de agressão, sim senhor! O mundo dos cartazes pop geralmente é muito "felizinho": um emaranhado de cores e informações que só poluem a arte. Fujo disso! Aqui a intenção era (além de priorizar o novo look) mostrar que uma banda estava chegando, e não uma coisa descartável. Afinal de contas, uma banda é algo importante. São os mestres de cerimônia que vão embalar a sua estadia num determinado recinto! O clima da sua noite está intimamente ligado à performance dos musicos.

Logomarca centralizada dando um grande "olá!" e informações bem organizadas, dentro de quadrados pretos e ocupando pontos extremos da arte (local do show no topo e demais infos quase no rodapé) pra evitar poluição. Valorizei a data e gostei do jeito que deixei horário e preço do show pequenos.

A criação do fundo estava resolvida na minha cabeça: amarelo chapado com uns elementos vermelhos nas laterais. Até pra valorizar a logo nova, porém (TEM SEMPRE UM PORÉM!!!) como eu tinha tempo pra entregar a arte, resolvi brincar com algumas texturas e transformei a foto de uma piscina (com água azul e limpa) nesse glacê áureo maluco que me fez mudar radicalmente de idéia. Fiz uns riscos com um pincel mais grosso e falho do photoshop num vermelho que ia escurecendo gradativamente. Acabei mexendo na logo por isso: coloquei um efeito plástico e sombra pra dar uma impressão 3D.

Então é isso. Acho que comecei a vestir uma camisa de flanela na imagem do Detset. Os próximos capítulos dessa saga em busca da identidade visual ideal você, meu querido e fiel leitor, acompanha em breve aqui no blog. Hasta!

sexta-feira, 25 de março de 2011

SAUDAÇÕES NERDS!

Maracutaia do Samba no ar com outro dos que mais gostei de fazer! É pedido da banda colocar os instrumentos nos cartazes que faço pra eles. Seria fácil ficar na zona de conforto de sempre agradar o cliente, mas às vezes não. Repetição gera estafa. Visual pro receptor da mensagem e mental pra quem faz a criação (eu mesmo). A solução que gosto pra evitar esse problema é ir, aos poucos, acrescentando elementos no conceito. Vai chegar uma hora que, sem grandes mudanças, o resultado já será bem diferente.

Nesse caso, me inspirei nos clássicos filmes de alienígenas dos anos 50, como por exemplo "A invasão dos discos voadores" (Earth vc. the flying saucers, EUA, 1956), e coloquei uma textura metalizada num pandeiro. Não é que ficou a cara de um OVNI?

Tendo a idéia definida, o resto foi só rabiscar manualmente um cenário (no caso penhasco e mar) e acrescentar pequenos detalhes como uma dupla avistando as naves (o bom e velho contato imediato de primeiro grau) e o veleiro sendo abduzido (contato imediato de quinto grau!!!). Pra dar o clima antigo joguei uma das minhas amadas texturas de papel velho que, nas cores puxadas pra tons pastéis, deram um ar de aurora boreal pra parada.

As informações ficaram bem comportadinhas em branco no penhasco e fim. Fim? Que nada! O cartaz foi VETADO, hehe! Tive que fazer um igualzinho os outros que fiz (nem vou postar aqui porque não tem o que falar sobre algo igual a outra arte já dissecada no blog) e, confesso, fiquei magoado. Estava mega empolgado com a solução encontrada pro problema da repetição. Sem falar que estamos falando de um dos cartazes que considerei ponto alto da minha criação! Ah, mas isso não ficaria assim... esperei um dia pedirem um cartaz com o adendo "URGENTE: PRA ONTEM!" e, quando esse dia radiante chegou, sugeri utilizar a arte que estava engavetada! Só mudei as informações e lá estava a minha ode a ficção científica em forma de poster musical pendurada nas ruas da cidade, hohoho! E digo mais: foi extremamente elogiada! O nerd apressado come miojo cru e quente, rapá...

sábado, 19 de março de 2011

CRAQUELÊ ESCARLATE

Há tempos não fazia um cartaz com o tema do Rage Against the Machine (obviamente trata-se de uma banda cover). Se não me engano, os últimos tinham sido pedidos no comecinho de 2009. Buenas, eis que surge uma nova missão e, cá estamos para cumpri-la da forma mais arriscada nesse mundo da propaganda (embora eu ache a que mais emociona): PESSOAL EXTREME.

O Rosa (vocalista da banda) sempre pede pra colocar "uma estrelona vermelha pra todo mundo se ligar" que já havia utilizado nas outras vezes. Mas é aquilo que já tinha dito no último cartaz da banda (vide post AI SE SESSÊ!): tudo bem reutilizar idéias, mas faça um igual de forma diferente.

Sabendo q a estrela estaria ali de qualquer forma, voltei minha preocupação pro fundo. Peguei uma textura de papel velho, amarelado pelo tempo, e utilizei um efeito negativo, transformando num azul escuro meio assombrado. Imaginando como ficaria esse fundo com o símbolo central não gostei. Mas não desisti de mantê-lo ali! Criei um novo fundo bege bem clarinho chapado e comecei a fazer uns rabiscos em azul. Até aí nada demais... porém (TEM SEMPRE UM PORÉM!!!) qdo amalgamei com o efeito negativo da outra textura, o fundo ficou ainda mais tenebroso e (muito alquimista morreria de inveja...) os riscos ficaram dourados! Quase dando uma impresão tridimensional. Como estavam muito finos, copiei o desenho e só dei uma espaçada em outra direção pra criar mais volume. Repeti esse processo mais uma vez e pronto: uma nutritiva macarronada ectoplasmática estava no ponto para ser consumida pelos olhares receptores da mensagem!

Fundo legal, mas poluído. E pra colocar as informações do show naquele massaroco? Ninguém enxergaria necas de pitibiribas! A solução veio de uma forma que muito me agrada: MOLDURA. Mas não uma moldurinha qualquer, nada disso! Tinha q ser uma senhora moldura que ocupasse boa parte do cartaz, deixando de ser item coadjuvante e sendo promovida a "elemento que dá um toque de classe". Simplesmente a fiz branca com as bordas borradas pra dar manter o clima soturno e curti bastante! Usei uma fonte só em minúsculas pra dar um ar gracinha, mas toda rabiscada pra entrar na onda do geral, colorindo em vermelho e preto.

Agora só faltava a estrela principal da arte q, por sinal, é uma estrela, hehe! Desenhei manualmente de uma forma bem tosca e, de quebra, usei um efeito pra craquelar minha protagonista escarlate. Só o efeito bruto não bastou e acabei dando uma forcinha pro Photoshop, quebrando alguns pedacinhos manualmente. Ah, atente-se pro fato dela vazar um pouco da moldura!

Arte finalizada, certeza de ser a que mais gostei de ter feito sobre o tema até então e, por que não dizer, a percepção de que, às vezes, ficar um tempo afastado de certo projeto é benéfico pra dar uma refrescada nas suas idéias. Fidelidade de um cliente é ótimo, mas é saudável pro próprio produto respirar outros ares também. A mesmice é o primeiro passo pro anonimato.

segunda-feira, 14 de março de 2011

PESADO

Base 2 na área! Eles fazem o especial d'O Rappa, é bacana fazer as artes, mas gosto mesmo quando rola o show rock'n'roll dos caras com as músicas deles.

Como tive o privilégio de acompanhar toda a pré-produção do disco dos caras, sei bem o que vem por aí: PORRADA SONORA! A primeira coisa que pensei foi fazer uma referência ao peso que a banda vem aplicando no seu som. Como sou um assíduo telespectador de documentários (quase um biólogo frustrado), resolvi que a imagem que representaria isso seria a de um rinoceronte. Sim! Aqueles simpáticos mamíferos perissodátilos que são a versão da Mãe Natureza para um tanque de guerra.

Pois bem, achei o retrato de um ser muito fotogênico da espécie e transformei em estampa. Na sequência, fiz um processo muito parecido com o do último post (tinha recém feito a propaganda) e rabisquei uma espécie de sombreados aleatórios no animal. Preferi utilizar tons pastéis entre amarelo e marrom, pois já tinha me decidido que o fundo seria totalmente branco.

Mas o Base 2 não é só paulada. Tem muito detalhezinho nos arranjos das canções, timbres variados, frases instrumentais delicadas, etc... e isso PRECISAVA estar, de alguma forma, representada na ilustração. Rabisquei então linhas azuis e vermelhas saindo das costas do rinoceronte que deram um ar psicodélico pra arte.

A logo da banda serviu como base de apoio pro nosso protagonista chifrudo. Adorei descentralizar ela desse jeito e torna-la parte do desenho. Deu aquele ar classudo que tanto gosto de não utilizar todos os espaços possíveis do cartaz. Também deixei as informações fora do eixo, separando-as com um ponto e por cores (as mesmas utilizadas no rinoceronte). Abaixo da logo e nas cores dos rabiscos psicodélicos, especifiquei (a pedido da banda) que se tratava do show de repertório rock e autoral.

Enviei a arte pra aprovação dos caras com certo receio. Geralmente quando gosto muito do resultado final, penso que posso ter viajado demais na maionese, mas eles também gostaram. Sinceramente, até hoje é um dos cartazes que mais me orgulho. Tanto que vai servir de referência pra todo o projeto gráfico do disco da banda que vou fazer. Quando sair do forno eu posto aqui o resultado, falou?